quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Transplante de Laringe


De voz nova, em alto e bom som
Americano é o primeiro caso de transplante de laringe bem sucedido

Heidler: cantoria na igreja e palestras
O ex-bombeiro americano Timothy Heidler, de 43 anos, vive na pacata Duncansville, no Estado da Pensilvânia. Um de seus programas preferidos é cantar no coro da igreja local. A voz grave de Heidler é motivo de admiração na cidade – não por seu timbre, mas por ser um prodígio da medicina. Ele é o primeiro caso bem-sucedido de transplante de laringe, procedimento que desafia os cirurgiões desde a década de 60. Em 1978, Heidler sofreu um acidente de moto no qual perdeu essa parte da garganta essencial à fala – é dentro da laringe que ficam as cordas vocais. Até se submeter à operação, só conseguia comunicar-se (mal) com a ajuda de um aparelho eletrônico externo. Hoje, Heidler não só canta como se transformou em falador profissional. Dá palestras para grupos de vítimas de lesões graves na laringe. Também recuperou o olfato e o paladar. Agora só falta tampar o furo da traqueostomia por onde respirava antes do transplante. Sua história está relatada na última edição da revista The New England Journal of Medicine, uma das publicações científicas mais respeitadas dos Estados Unidos.

A cirurgia que devolveu a voz ao ex-bombeiro foi realizada em janeiro de 1998 por médicos de Cleveland. O doador foi um homem de 40 anos, morto em decorrência de um derrame. O transplante durou doze horas. Além da laringe, ele recebeu parte de uma nova traquéia e outra glândula tireóide. Num trabalho extremamente minucioso, os médicos religaram todos os vasos sanguíneos e nervos da área, o que garantiu o êxito da operação. A recuperação de Heidler foi surpreendente. Três dias depois do transplante, ele soltou um "hello". Contrariando as previsões médicas, no terceiro mês ele já conseguia engolir. Aos poucos, reconquistou o olfato e o paladar. O ex-bombeiro tem uma voz diferente da original, mas ela não é nada parecida com a do doador. Isso porque a voz é resultado do impacto do ar expirado sobre as cordas vocais, e não da conformação da laringe. "Depende muito mais da capacidade pulmonar de cada um", explica o médico Luiz Paulo Kowalski, especialista em cirurgia de cabeça e pescoço. O sucesso no caso de Heidler não significa que transplantes desse tipo estejam prestes a virar rotina. Como os riscos são altos demais, os médicos preferem instalar válvulas fonatórias artificiais em pessoas que perdem a laringe. Elas devolvem a capacidade de fala a 80% dos pacientes. A voz que sai das tais válvulas, porém, tende a ser muito fraca e abafada.
Revista VEJA - Edição 1 703 - 6 de junho de 2001

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