“Nós somos medo e desejo,
somos feitos de silêncio e sons.
somos feitos de silêncio e sons.
Tem certas coisas que eu não sei dizer...” .
Lulu Santos
Desde a adolescência coloquei as palavras 'otorrinolaringologista' e 'fonoaudióloga' no meu dicionário particular. Aos 17 anos fazia a 1ª cirurgia para retirar um pólipo (lesão polipóide solitária benigna, que acomete principalmente crianças e adultos jovens) na corda vocal direita, mas já havia retirado as amigdalas aos 14. Foi também nesse período que ganhei um violão de presente de aniversário, e assim minha rotina passa, além de preparação pro vestibular e fonoaudióloga com exercícios de voz e discursos sobre repouso vocal indispensável, horas e mais horas pelas madrugadas a tentar desvendar as notas musicais e encontrar um tom que eu alcançasse. Claro que nunca encontrava esse tom, o que não me impedia de cantar, cantar e cantar, sempre rodeada de muitos amigos. Sem modéstia, rapidinho eu já tocava muito bem, notas dissonantes impecáveis, MPB e bossa nova, uma finura musical. E como estava em alta, era chique fumar, eu fumava, e bebia cerveja.
Entrei na faculdade, Letras, queria ser professora, e também entrei no PCdoB (Partido Comunista do Brasil) ainda na ilegalidade, e participei de Congressos da UNE (União Nacional dos Estudantes); Seminários do ENEL (Encontro Nacional dos Estudantes de Letras); Seminários de Viração (Juventude do PCdoB, hoje UJS, União da Juventude Socialista), além de desenvolver um movimento político pela emancipação da minha cidade, Madalena-CE, e hoje preparo lançamento de um livro que escrevi contando essa vitória do Povo:
http://www.umsonhofelizdecidade.blogspot.com/
A 2ª cirurgia foi em setembro de 2000 - só o início de uma longa caminhada de muitas cirurgias:
“...Pregas vocais móveis e assimétricas. Observa-se lesão vegetante e leucoplásica no 1/3 médio da prega vocal direita.... Diagnóstico: Lesão vegetante e leucoplásica de prega vocal direita.”
Esse foi o resultado do exame: Papiloma de corda vocal, doença mais comum em criança, rara em adulto, altamente recidivante. A conduta é: cirurgia da laringe para exérese de lesão. "Não fique triste, eu aconselho que a cirurgia seja logo, pra que você fique logo boa. Não se angustie, vai dar tudo certo", dizia o médico.
Aqui eu já tinha 38 anos, servidora pública do Estado, professora, casada, mãe de 3 lindos e amados filhos, já não fumava desde pouco tempo depois do noivado, condição imposta para o casamento, o que me ofendeu profundamente, na época, mas eu, na condição de completamente apaixonada, não tive argumentos convincentes ao César a conviver com meu cigarro. Hoje agradeço a Deus por essa imposição dele, já faz 22 anos, ou seja, parei de fumar em julho de 1987. Casei em novembro do mesmo ano, e no ano seguinte parei de tomar cerveja, por causa da gravidez e nascimento do 1º filho. Foi uma decisão própria, simplesmente não suportava mais, abusei. Isso foi muito bom pra minha saúde, acredito que com fumo e bebida o quadro seria muito pior.
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Assim, dia 20/09/2000 eu fazia a 1ª de uma sequência de 11 cirurgias para retirada de papiloma, que como disse anteriormente, é altamente recidivante. Para a cirurgia seguinte, foi um intervalo de 48 dias.
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Era sempre assim: Muitas dores num período de 7 dias, desconforto, e o pior, comunicação através da escrita. Esperar o resultado da biópsia era uma tensão absoluta, felizmente era sempre "negativo para células neoplásicas". Que alívio, porque em nem conseguia pensar naquela palavrinha "câncer". Confirmar papiloma era mesnos ruim, visto que é um tumor benigno. Foi quando, praticamente, eu assimilei as palavras tumor e benigno, como substantivo e adjetivo juntos. Realmente elas não deveriam se relacionar, já que tumor é algo indesejável, doloroso, doentio e benigno é algo suave, brando, agradável. Como benigno pode adjetivar tumor? Felizmente pode, e tem um peso decisivo, dá uma conotação perfeita, senão vejamos: “Tumor benigno – o que não invade tecidos em que se não originou e não produz metástase” (cf. Dicionário Aurélio – séc. XXI). Então, compreendi, na minha prática, que é benigno porque poderia ser muito pior. Compreendi, também na minha prática, o que significa dar graças em tudo, aí glorifiquei a Deus, não por eu ter um tumor benigno, mas por Ele ser um Deus Vivo e ter se manifestado a mim. Na verdade, eu ainda não sabia que a minha situação gritava por um milagre.
Depois de cada cirurgia, a indicação era a fonoterapia, até a recidiva do tumor, que me levava a mais uma cirurgia. Realmente, não há tratamento para papiloma de prega vocal, e a cirurgia é indicada, tantas quanto forem necessárias, porque o tumor pode crescer a ponto de impedir a respiração. Se isso acontecer, a saída é uma traqueotomia, essa palavra me arrepiava até a alma. Estava aprendendo uma coisa nova: a cirurgia não era para ficar curada, mas apenas para continuar ‘respirando’. Agradeci a Deus eu poder fazer outra cirurgia. Havia a possibilidade de mais algumas... Foi aí que compreendi que estava dependendo completamente de um milagre de Deus. “Salva-me, ó Deus, porque as águas me sobem até à alma.”
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Mas, muito melhor é depender de um milagre do Senhor, do que depender de toda a sabedoria do homem. Se Ele quiser, usa o homem. Era esse o meu pensamento, todas as vezes que entrava no centro cirúrgico, certa de que Deus iria operar, através daquele médico já tão querido por mim, um milagre em mim. Assim, sucederam-se 11 cirurgias. Os resultados eram bons, das biópsias, sempre negativo para células malignas, isso me tranquilizava muito, a possibilidade de câncer sempre descartada.
Na última cirurgia, em 2007, o médico usou uma droga que estava surtindo um efeito positivo, desacelerando o surgimento de papilomas. De fato, foi mais de 1 ano sem cirurgias, eu acreditava estar livre, depois, surgia algum resquício de papiloma, mas sem ser necessário retirar.

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